Vamos falar sobre o #nossofutebol

Vamos falar sobre o #nossofutebol
Por Guerreiras Project – 05/10/2017

[A demissão de Emily Lima explicita o modus operandi nacional em relação ao jogo feito pelas mulheres. O posicionamento do Guerreiras Project sobre o tema ressoa o de muitas jogadoras. É um clamor cansado. Mas que não se dá por vencido.]

Na sexta-feira 22 de setembro a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) demitiu Emily Lima do cargo de treinadora que ela havia assumido dez meses antes. À frente da seleção feminina de futebol por 13 jogos, Emily consagrou um empate, cinco derrotas e sete vitórias, conquistadas em suas sete primeiras partidas. A versão oficial do desligamento coloca a responsabilidade por ele em supostos tropeços nos últimos compromissos da seleção, mas é imprescindível observar que as derrotas foram para times mais fortes, como Alemanha, EUA e Austrália, países que investem na profissionalização e desenvolvimento de suas equipes.

De acordo com a CBF, Emily Lima foi substituída por Vadão por conta de seus maus resultados. É importante salientar que nosso ponto aqui não é discutir a questão técnica; para nosso argumento, importa pouco se Vadão é a melhor opção, ou se Emily fez as melhores escolhas. Entre vitórias, derrotas, táticas e esquecimentos, nosso posicionamento é dar enfoque ao que dizem as jogadoras, cujas declarações públicas são bastante diferentes do posicionamento oficial da CBF. Sendo assim, a relevância deste caso é histórica. A demissão da primeira mulher a ocupar o cargo de técnica da seleção brasileira de futebol feminino trouxe à tona a lamentável situação da modalidade no Brasil, demonstrando que o machismo da instituição não reside necessariamente na demissão de uma mulher, mas sim que opera como engrenagem do próprio futebol feminino.
Apesar da demissão de uma mulher do comando da seleção ser inédita, outros componentes dessa história são antigos. Assim, nosso posicionamento se desdobra a partir do silenciamento e apagamento sistemáticos e institucionais das atletas do futebol feminino, tão potentes que chegam a engendrar dificuldades para promovermos, de forma massiva, uma contra narrativa. A boa notícia é que há algo de diferente no momento atual, que pode ser visto nas declarações de desligamento da seleção de atletas como Andreia Rosa, Maurine, Rosana, Franciele e Cristiane. Seus posicionamentos não somente desafiam a narrativa da CBF, mas também revelam o grau do descaso da instituição com suas atletas mulheres, escancarando o machismo que impera nas cadeiras de comando da modalidade.

Dois dias antes da declaração sobre a demissão de Lima, as atletas da seleção haviam enviado uma carta ao presidente da CBF, Marco Polo del Nero, pedindo pela permanência da treinadora e de sua comissão técnica. Poucos veículos de mídia noticiaram essa informação – a CBF, afinal de contas, é grande e poderosa, e o jornalismo já pouco se interessa pelo futebol feminino (http://bit.ly/2xkET4Y). Na carta, feita pela maioria das jogadoras e entregue em reunião interna, as atletas indicam já ter conversado com Marco Aurélio Cunha. A missiva é evidência de que elas tentaram, de alguma forma, se organizar como grupo por uma decisão que julgavam ser melhor para si. A negativa da demanda, e posterior aceite generalizado da justificativa oficial dada ao caso, deixam evidente qual é a força das vozes das atletas.

Este é um movimento grandioso e independente de posicionamentos individuais. Nosso objetivo não é fomentar narrativas de mocinhos e vilões, nem focar nas decisões particulares de cada jogadora, mas sim salientar a desigualdade com que o futebol feminino é tratado, a partir do silenciamento e de apagamento das vozes de suas atletas.

A negligência com a carta e as muitas declarações posteriores à demissão de Emily não são as únicas indicações de que o silenciamento das jogadoras e apagamento das suas versões sobre o futebol feminino são sistemáticos. Em matéria do UOL Esportes (http://bit.ly/2yM0AqK), ao ser questionado se foi machismo o que causou comoção entre as atletas, o coordenador Cunha respondeu não acreditar que esse fator tenha sido decisivo, insinuando que “o preconceito às vezes vem um pouco do lado de lá, do lado delas”, e que o machismo já afetou muito o futebol feminino, mas que hoje atrapalha “muito menos”. Sobre a insatisfação das jogadoras com seu trabalho, MAC alegou que elas não estão “a favor, nem contra”, e que tudo é “calor do momento”, sugerindo que a saída em massa é resultado de supostas fadigas e frustrações das jogadoras, e que “se deve mais à carência da modalidade do que a um suposto boicote contra a CBF”.
Compreendemos que, historicamente, se construíram normas sobre a participação de mulheres nos esportes com bases biológicas hoje ultrapassadas. Mas apesar dos avanços, restam muitos preconceitos culturais. Pesquisas indicam narrativas que se repetem em relação ao esporte, como as falsas simetrias entre as modalidades masculinas e femininas, feitas à exaustão. Um estudo da Cambridge University Press publicado ano passado (http://bit.ly/2aMsU0m) revela que o linguajar sobre mulheres esportistas se concentra, de forma desproporcional, em suas aparências, indumentárias e vidas pessoais. A ênfase quase nunca é colocada no próprio atletismo.

Isso não é diferente no futebol feminino. A feminilidade e aparência das jogadoras, não surpreendentemente, é sempre um assunto. Outro assunto recorrente é a profissionalização, ou ausência dela, o que é no mínimo intrigante. Todo mundo parece saber que o futebol feminino no Brasil é marginalizado, e sobrevive apesar das dificuldades. Também sabe-se ser preciso encontrar estratégias para desenvolver a modalidade no País, o que logicamente pressupõe uma gestão esportiva estruturada. Como é possível então pensar que a carência da modalidade não esteja relacionada à CBF?
Isso nos leva a outro padrão que parece se repetir nas narrativas sobre mulheres no futebol – e, francamente, nas narrativas sobre mulheres em geral: a deslegitimação descarada de nossos argumentos, inclusive e especialmente nossos argumentos sobre nós mesmas. Podem não estar vendo que é isso que estão fazendo. Mas nós estamos. E não é difícil perceber isso em curso neste caso específico, basta observar, em contraste, as declarações do órgão, das comissões e das atletas. As respostas recorrentes a argumentos feitos por mulheres é que eles têm origens meramente emocionais, ou psíquicas. Se ousamos dissentir, somos lidas como loucas, histéricas, neste caso frustradas e cansadas. Isso é manipulação.

Os posicionamentos das atletas podem ser emocionantes, emocionados, até emocionais. Mas estão longe de acontecer por causa de emoção. Eles existem porque a luta é por condições dignas de trabalho, afinal estas são mulheres para quem futebol não é passatempo, mas profissão. As jogadoras não estavam projetando frustrações, mas delineando o estado precário da modalidade e se posicionando quanto a isso. Contar histórias outras que aquelas contada pelas próprias mulheres do futebol sobre si mesmas é manipulação, silenciamento, apagamento.

Em uma petição (http://bit.ly/2yrQy1Z) solicitando o retorno de Lima à CBF, a Prof. Dra. Silvana Goellner, coordenadora do Centro de Memória do Esporte e do Grupo de Estudos Sobre Esporte, Cultura e História vinculados à UFRGS, declara querer reverberar o assunto, mesmo sabendo que a volta não se concretizará. Sobre o caso, Goellner diz que foi uma surpresa quando a CBF anunciou o desligamento da treinadora de sua função “sem explicações, sem justificativa, sem detalhes”. Goellner considera que esta foi mais uma grande derrota para o futebol feminino, e diz que “ao demitir a treinadora com tão pouco tempo de trabalho e tão poucas oportunidades para demonstrá-lo, a CBF sepultou um projeto para fazer valer um remendo”, e prossegue: “mais uma vez, a descontinuidade prevaleceu”.

A forma como tudo aconteceu deixa bem claro – mais uma vez – que não é difícil que interrompam o que é duramente construído pelas mulheres e alguns homens que se dedicam ao futebol feminino e pegam junto na luta diária, com pouco dinheiro, muito suor e lágrimas, e luta constante dentro e fora dos campos. Sabemos que algumas atletas estão em conversa com mulheres da Fifa sobre o assunto, e que uma articulação está sendo feita para que haja audiência pública no Senado. E é importantíssimo que tudo isso esteja acontecendo.

É imprescindível, neste processo, que nos perguntemos por que não há planejamento para o futebol de mulheres, seja para as seleções feminina de base e principal ou para as equipes que compõem a modalidade. É fundamental que não esqueçamos de questionar por que não existe interesse em que a modalidade seja autossustentável, ou que gere lucro. Como jogadoras, estamos cansadas que nos digam que somente damos prejuízo, quando sabemos que vivemos dos restos do futebol masculino, tratado de forma tão diferente. (E para dar dois parcos exemplos desta diferença de tratamento (http://bit.ly/2bcHoM1) e apenas em relação a demissões de equipes técnicas: as comissões do sub 20 e 17, com resultados pífios em competições, não caiu, e nas seleções adultas, também não sempre bem-sucedidas, ninguém jamais caiu em tão pouco tempo por resultados semelhantes.)
Independentemente de como essa decisão vai se desdobrar, em termos práticos, não vamos nos calar sobre o acontecido. Neste momento muitas atletas de dentro e fora da seleção, bem como outras mulheres profissionais e/ou entusiastas do futebol feminino estão demonstrando, em massa, que diferente do que se pensa, estamos vendo bem o que fazem conosco. Não nos passa despercebido que tão poucas mulheres componham as comissões de um esporte praticado por elas. É preciso perguntar porque as poucas que permanecem parecem se calar. É fundamental desconfiar de que elas simplesmente aceitam a forma como o futebol feminino nacional opera – ou melhor, é operado. Seria medo, oportunismo, ou falta de um espaço onde se possa debater e unir forças?

E o que fazer para mudar? Não temos uma resposta exata, mas não podem ser em vão nossas tentativas de negociar com clubes, reforçando a necessidade de se pensar a modalidade. Não pode ser em vão que declaremos saber precisar exigir que a federação, a confederação e todas as outras organizações que de fato detém poder sobre o esporte, nos respeitem. Há uma lição a ser aprendida: foi feita uma carta, foram compartilhados os posicionamentos das atletas, foram escritas algumas matérias, e nada saiu do curso decidido pela CBF. Nem a narrativa pública sobre o acontecido. A decisão sobre a demissão de Emily Lima já havia sido tomada antes da carta – ou seja, com carta ou sem carta, a cartada já estava dada. Algumas pessoas sabiam disso. A maioria não sabia, e tentou, pela primeira vez na história, dissuadir o “poderoso chefão”. E esta contra narrativa foi abafada.

Dentro do futebol, somos silenciadas e apagadas. Fora dele, mal temos adesão e apoio da sociedade, que ainda desconhece nossas questões – e seguirá desconhecendo, a não ser que nossas vozes ecoem. Como disse a agora ex-jogadora da seleção Rosana, “se nada muda, eu mudo.” Mudemos nós a forma como lutamos, nos unindo a atletas e outras pessoas que também querem batalhar pelo bem da modalidade.

Ainda que o cenário de hoje apresente melhorias comparado há 20 anos – coisas como aumento no número de jogadoras, a realização de jogos e campeonatos em grandes estádios e com torcida (mas nem em todos: em Porto Alegre as equipes femininas tanto do Grêmio quanto do Inter não jogam nos estádios dos seus clubes), e até mesmo menor relutância de pais e mães para incentivar suas filhas ao jogo – alguns gritos seguem presos na garganta. Evoluímos como um todo, e é importante reconhecer as conquistas. Mas ainda estamos longe do ideal. Os clubes que dispõem de equipes de futebol feminino ainda são gerenciados por homens, e ainda falta muito planejamento e análises francas a respeito de onde estamos, de onde queremos chegar, e sobre como chegaremos lá. A inserção de mulheres em cargos de gestão, tanto em clubes como em órgãos que cuidam da modalidade, é o que precisa acontecer. Representatividade importa, porque faz diferença – que os digam as poucas exceções, como a ex-capitã da seleção Aline Pellegrino, que coordena a FPF, e a própria Emily Lima.

É preciso que organizemos uma articulação conjunta potente, não necessariamente pelo retorno impossível de Lima, mas pela modalidade como um todo, para que avanços não sejam tão voláteis. A essa altura do campeonato, estar dentro ou fora da seleção ou de equipes importa menos do que estar trabalhando na direção de levantar e resolver estes dois pontos importantes, que são o descaso com e falta de planejamento para o futebol feminino, e o silenciamento e apagamento sistemático das jogadoras que exigem esse tipo de reparação.

A repercussão deste caso é bem-vinda e fundamental, mas, longe dos holofotes que a seleção costuma receber – meio apagadinhos, no caso do futebol feminino, sejamos honestas – é fácil este assunto perder força. Estarmos juntas não pode depender de estarmos ou não vinculadas à seleção, ou a um clube. Nosso problema é maior, e é de base. Muitas jogadoras abandonam a modalidade em respeito às conquistas de suas árduas carreiras. Não podemos esperar pelo momento de exaustão de cada jogadora individualmente a respeito do que ela tolera ou não aceitar. Precisamos nos unir, e rápido – e se não de dentro, que seja por fora, pelas margens, hackeando os espaços que nos negam, e abrindo outros caminhos. Ousamos especular que isto seja o que está acontecendo, e achamos bom. Estamos nos organizando, e você?
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